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O papel da mulher na literatura contemporânea é tema de bate-papo na Bienal

O papel da mulher na literatura contemporânea é tema de bate-papo na Bienal

Em bate-papo descontraído, as autoras Catarina Muniz e Halice FRS trouxeram à tona exemplos da realidade do mercado editorial ao abordar O papel da mulher da literatura contemporânea no sexto dia de atividades da 8ª Bienal Internacional do Livro de Alagoas. Um dos primeiros exemplos relatados foi o uso de pseudônimos por escritoras.

Catarina Muniz explicou que, em muitos casos, autoras só conseguiram ser lidas porque adotaram pseudônimos masculinos ou, no mínimo, esconderam o fato de serem mulheres. “Homens e mulheres leem homens. Quem lê mulher é, quase sempre, mulher. Isso é um reflexo, um sintoma e precisa ser combatido”. A declaração foi reforçada por Halice FRS. “Tem muita autora que precisa mascarar, para quando o leitor vir o nome dela na capa, achar que é um homem, comprar o livro e depois descobrir que é uma mulher. E não precisa ser assim”, acrescentou.

Assim como em outras áreas, a mulher também é estereotipada na literatura, seja enquanto escritora, personagem ou leitora. Para as duas autoras, especificamente nos livros, uma personagem feminina, muitas vezes, não consegue ser plenamente feliz na vida pessoal e profissional. “Há uma imagem distorcida de quanto mais você cresce na carreira, mais o relacionamento afunda. E não precisa ser assim. Pra quê passar isso?”, questionou Halice.

Outro motivo de indignação dentro da literatura, segundo elas, é associar escritoras apenas a gêneros como romance e erotismo. Um dos claros exemplos é o chick lit, que, nas palavras de Catarina Muniz, pode ser traduzido como “literatura para mulher”. “Acho terrível ter seu material classificado como chick lit, porque isso afunila seu público e tira a possibilidade de irem até você, explorarem seu trabalho e verem que você escreve algo bacana”, declarou Catarina.

Ainda segundo ela, a associação de romance a escritoras pode ser vista, inclusive, nos estandes da Bienal. “Se vocês tiverem curiosidade, deem uma olhadinha. Vocês vão verificar claramente essa diferenciação, que é injusta. Não foi porque as mulheres não quiseram abordar certos temas, foi porque a elas não foi dada a oportunidade de mostrar seu trabalho”, observou.

As duas também foram questionadas sobre qual é o papel da mulher na literatura contemporânea. “Eu diria que é um papel ainda de desbravadora, lutadora. Uma mulher que se dispõe a escrever, publicar para ser lida, tem que estar disposta a ser lutadora, a quebrar regras e padrões, porque senão ela não vai conseguir. As dificuldades ainda são muitas”, declarou Catarina.

Já sobre o que pode ser feito para a mulher ter mais espaço na literatura, principalmente no Brasil, Halice diz que isso percorre um outro caminho: a solução já não depende da autora e das editoras, mas, sim, dos leitores. “Eles até aceitam mais a mulher como autora, mas ainda é muito limitado. Aceitam mais as autoras de fora do que as nacionais. Então acho que a mudança precisa vir daí”, finaliza.

Natália Oliveira – jornalista

Foto: Thiago Prado

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