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Sapateado e Coco pintam ‘Retratos da nossa cor’, o balé contemporâneo de José Marcos

Sapateado e Coco pintam ‘Retratos da nossa cor’, o balé contemporâneo de José Marcos

Uma linha negra sinuosa e contínua, elegantemente ligeira sobre tela alva, a se mover indomável e visceral com sinceridade artística singular: preto no branco, pluralidade cênica e singeleza regionalista. Assim é o bailarino José Marcos no espetáculo Retratos da nossa cor, apresentado neste sábado (7), no Teatro Gustavo Leite, integrando o penúltimo dia da 8ª Bienal Internacional do Livro. A identidade negra do artista alagoano Mestre Zumba pautou a temática do espetáculo de Marcos, que desenhou no palco com o balé do seu próprio corpo a poesia negra criada pelo mestre da pintura alagoana.

Concluinte da graduação em Dança, na Universidade Federal de Alagoas, Marcos já tem a maturidade cênica necessária para assumir espetáculo solo e tem constituído um histórico de montagens reconhecidamente competentes. Ele conta que Retratos da nossa cor surgiu de duas disciplinas do currículo universitário, ministradas pela professora Nadir Nóbrega, que trabalha a temática do Mestre Zumba em interdisciplinaridade entre Dança e Educação. As cores preto, branco e vermelho pintam o imaginário em volta do espetáculo, e esta ideia de design o artista explica: “Nessas cores encontramos a África negra, o sangue ancestral que corre em todo brasileiro e o branco como a candura da alma”, revela.

Pela valorização da cultura alagoana

“Como é um trabalho que obrigatoriamente teria de ser apresentado para alunos de escolas públicas, e em aparelhos de cultura da Universidade, seguindo as determinações curriculares da Ufal, o Mestre Zumba foi escolhido principalmente porque, ao analisar o currículo de Arte da educação pública, encontramos Van Gogh, Picasso, Tarsila do Amaral, mas não tem Zumba. O José Mestre Zumba, o nosso!”, critica o artista a falta de valorização das heranças e ícones da cultura alagoana.

“Então, a Secretaria de Cultura de Alagoas, traz uma exposição de colecionadores que a maioria tem quadros do Mestre Zumba. Ou seja, tem um valor. Então, por que, este valor está na sala de intelectuais colecionadores mas está ausente da sala de aula, do currículo escolar, sem acesso para crianças e jovens?”, questiona.

A performance

Uma imensa tela branca. Um corpo negro. Poucos elementos. Figurino minimalista. Essência africana em ebulição, transbordando na crítica à inexistência do Mestre Zumba no cenário sendo projetado através de pinturas no próprio corpo do bailarino José Marcos e na tela ao fundo. Uma moldura vazia ao centro. “O quadro está vazio justamente porque ele precisa ser completado. Existe uma interação da própria performance entre a obra do Zumba, o meu trabalho de corpo e a plateia, que preenche essa tela em branco, tudo baseado no verbo reconhecer, porque é preciso reconhecer a ancestralidade pintada pelo Zumba negro, a ancestralidade de cada alagoano. Em todo o seu trabalho, Zumba pintou uma Alagoas: nosso folclore, nossas paisagens e nossos tipos humanos. Os tipos humanos foram minha escolha”, esclarece.

Para a trilha sonora do espetáculo, Marcos revela que a ideia é essencialmente regional. “Temos peças do movimento Armorial, de Pernambuco, peças da riqueza da África Banto, da Orquestra de Tambores da Ufal e, recentemente eu inclui o coco alagoano, depois de lançado o CD Sonora Brasil, do Sesc, e me chamou a atenção os cantos de Zeza do Coco, de Telma Cesar, pois eu me entendo um bailarino alagoano que precisa valorizar o coco e o sapateado”, declara o artista que junta as duas estéticas artísticas numa só concepção de balé contemporâneo.

“Trago esta proposta de dança como reconhecimento do Zumba como mãos que pintam, e eu pinto o movimento, as cores, os tipos humanos do Zumba, a nossa alagoanidade com os pés, valorizando, especificamente, o coco alagoano”.

E, de fato, a linearidade performática de José Marcos é como uma pintura que mistura pós-expressionismo e contemporaneidade, em que nenhuma pincelada é em vão, mas evoca o sangue negro, canta um murmúrio lamentoso de dor pela escravidão histórica, que não se curva, que baixa, rodopia, mas emerge e sapateia na História, e levanta a poeira da alma, ressurgindo como fênix em sangue que invoca a vida, que faz reverberar as nossas raízes, e nesse processo de construção plástica, o artista dança um coco bem pisado, como um balé sobre o massapê que é o lastro da nossa história alagoana, a nossa raiz caeté.

Marcio Cavalcante – jornalista

Fotos – Manuel Henrique

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